Quaresma: Via-Sacra representada por pessoas com deficiência quer mostrar capacidades e não limitações

Escrito em 21/03/2026
Lígia Silveira

Encenação promovida desde 2005 pelo Centro de Apoio e Reabilitação para Pessoas com Deficiência, em Touguinha, Vila do Conde, nasce da motivação dos utentes e de uma instituição que se adapta a cada um 

Foto Agência ECCLESIA/CB

Vila do Conde, 21 mar 2026 (Ecclesia) – O Centro de Apoio e Reabilitação para Pessoas com Deficiência (CARPD), em Touguinha, Vila do Conde, organiza hoje, com os seus utentes, a encenação da Via-Sacra apostando nas capacidades dos participantes e não nas suas limitações.

“Queremos levar para fora o que tentámos fazer no centro. Que as pessoas não olhem para as deficiências e para as limitações, mas olhem para o que são capazes de fazer, para as capacidades. Trata-se de um momento de apelo para cada um de nós: nós às vezes queixamos, e eles fazem coisas com tantos problemas físicos ou comportamentais, e eles conseguem fazer uma coisa brilhante. É um apelo para todos nós, para as nossas desculpas, para os nossos adiamentos”, explica à Agência ECCLESIA Sérgio Pinto, coordenador e diretor do CARPD da Touguinha, da Casa da Misericórdia de Vila do Conde.

“São pessoas que podem demorar um bocadinho mais tempo a decorar, mas depois, quando decoram os posicionamentos, os movimentos, as falas, encaixam de forma impecável. E é engraçado, todos os anos, a peça fica mais complexa, é sempre diferente, e cada vez é mais fácil de ensaiar. Porque eles já sabem como é que é, às vezes entra um utente novo que ainda não sabe e os outros dizem ‘não, agora não é, agora tens que ouvir, agora vais para ali’”, acrescenta o responsável.

A encenação dos passos da Via-Sacra nasceu em 2005, “de uma forma simples”, nos jardins da instituição, com a participação de famílias e amigos que foram pedindo, a cada ano, a sua realização: “Três anos depois já era complicado continuar a fazer no jardim. Era tanta gente, já não se conseguia ver as cenas”.

Foram acolhidos durante um tempo no auditório municipal de Vila do Conde, passaram depois para o Teatro Municipal, com 544 lugares, e hoje a encenação da Via-Sacra tem de ser repetida, dada a procura e afluência de público.

Este ano a Via-Sacra, com 47 pessoas envolvidas, inspira-se no diálogo entre Jesus e a Samaritana, com textos originais escritos por Sérgio Pinto, que os começa a preparar no início de cada ano.

“Se Jesus viesse hoje, em 2026, o que nos poderia dizer a nós? Tentamos escrever o texto nesse sentido, sendo fiel à Via-Sacra, como é óbvio, sempre com textos bíblicos, mas não seguimos necessariamente as 14 estações. Podemos saltar algumas, mas sempre com a mensagem atual para os problemas da vida de hoje”, traduz.

“O «dá-me de beber» é uma interpelação: sai do teu sofá, sai das tuas desculpas, sai dos teus adiamentos e vai. Dá de beber também aos outros. Dá-me de beber. Não me bebas sozinha. Dá-te a mim de beber”, explica.

O guarda-roupa da Via-Sacra foi este ano confecionados no Centro com a ajuda dos utentes e da costureira.

A funcionar desde 1994, o CARPD, em Touguinha, Vila do Conde, nasceu para dar resposta às pessoas com deficiência, sentida na altura, e que hoje continua a existir, e apresenta resposta em Lar Residencial para 97 pessoas, acolhe 120 pessoas durante o dia no Centro de Atividades e Capacitação para a Inclusão e apoia 20 pessoas no domicílio.

“Não queremos só pintar por pintar, mas que a pintura sirva mesmo para os capacitar, trabalhar a motricidade fina, e olhamos para eles como, precisamente, pessoas para valorizar, e por isso mesmo queremos que eles sejam pessoas de pleno direito, que não façamos só coisinhas”, retrata o responsável.

Foto Sérgio Pinto; Agência ECCLESIA/CB

A instituição aposta no desporto – Boccia, futsal, basquetebol, técnicas de mesa, ciclismo, meditação – e, entre outras atividades, valoriza o teatro.

“Temos percorrido as escolas com peças de teatro. Todos os anos trabalhamos uma peça, e vamos pelas escolas. Este ano, já fizemos cerca de umas 50 atuações em vários sítios”, indica.

Sérgio Pinto regista que o CARPD existe para os utentes e que o envolvimento de todos e a escuta sobre o que as pessoas valorizam, resulta em maior empenho e motivação nas atividades.

“Não são eles que se adaptam ao centro; somos nós que procuramos ir atrás das potencialidades deles, dos gostos deles, e exige de nós uma atenção permanente para cada um”, valoriza.

CB/LS

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